Mercados privados concentram até US$ 5 tri em IA e desafiam alocação em venture capital
Análise da a16z aponta que tratar o segmento como nicho artesanal afasta investidores institucionais dos maiores ganhos de valor na tecnologia.

Foto: JD Lasica / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
Entre US$ 3,8 trilhões e US$ 5 trilhões em valor acionário estão concentrados em poucas companhias privadas de inteligência artificial, colocando em xeque as estratégias institucionais que mantêm o venture capital restrito a parcelas de 5% a 10% nas carteiras. O diagnóstico de Jen Kha, sócia e responsável por Parcerias Globais da Andreessen Horowitz (a16z), indica que a cautela excessiva dos comitês de alocação pode representar uma das maiores falhas estratégicas recentes no mercado financeiro global.
Historicamente tratado como uma indústria artesanal dentro das fatias de ativos alternativos, o venture capital passou por uma transformação de escala impulsionada pelas rodadas tardias. A avaliação da SpaceX alcançou cerca de US$ 2,1 trilhões em sua abertura de capital, superando em dez vezes os recordes anteriores do setor. No mesmo segmento, a Anthropic recebeu valuation de US$ 965 bilhões, enquanto a OpenAI foi avaliada em US$ 852 bilhões. Com essas cifras, a maior parte da geração de valor tem permanecido fora das bolsas públicas por períodos mais longos.
A disparidade com o modelo tradicional e private equity
A retenção de valor nas fases fechadas alterou a dinâmica das ofertas públicas. Quando o Google realizou seu IPO em 2004, encerrou o primeiro dia avaliado em US$ 27 bilhões — cerca de US$ 48 bilhões corrigidos pela inflação. Levantamento da PitchBook citado pela a16z revela que essa cifra não estaria entre as 20 maiores captações de venture capital registradas desde janeiro de 2025, equivalendo a apenas um terço da mediana pós-money dessas transações.
O distanciamento também aparece na comparação com o private equity tradicional. O volume financeiro em saídas de empresas apoiadas por capital de risco triplicou o teto histórico do buyout. Enquanto o IPO da Medline somou US$ 54 bilhões como a maior listagem de private equity, a SpaceX atingiu um patamar cerca de 39 vezes superior. No segmento de vendas diretas, a saída de US$ 40 bilhões da Aligned Data Centers ficou abaixo da transação de US$ 60 bilhões envolvendo a venda da Cursor para a própria SpaceX.
Na estrutura de retornos da a16z, a lei da potência dita o resultado financeiro: as perdas operacionais representam 15 centavos para cada dólar alocado em seus fundos, enquanto apenas a participação na Databricks corresponde a 20% do total de ativos geridos pela firma. Ao mesmo tempo, o mercado mostra polarização: no primeiro trimestre de 2026, o intervalo mediano entre rodadas de unicórnios ativos encolheu para um ano, contra 1,5 ano em 2024, mas 51,2% das empresas que atingiram o status de unicórnio não captam recursos novos há mais de dois anos.
Concentração de retornos e impacto para alocadores
Como referência institucional, o CalPERS reestruturou sua carteira de alternativos no fim de 2022, reduzindo os compromissos em buyouts de 91% para 58% e elevando a exposição a growth e venture de 9% para 43%. A mudança levou o programa da 30ª para a 1ª colocação no ranking dos 30 maiores fundos de pensão públicos dos Estados Unidos no segmento, puxado pelo desempenho do capital de risco.
Apesar do volume recorde nas companhias líderes, os dados indicam que o acesso qualificado permanece restrito. Levantamento da Accolade Partners aponta que apenas 20 das cerca de 3.000 gestoras de venture capital nos Estados Unidos entregaram retornos líquidos de pelo menos 3 vezes o capital nos últimos vinte anos. Dados da PitchBook de setembro de 2026, com base em 2.143 fundos globais lançados entre 2000 e 2018, mostram a assimetria do setor:
- 17% dos fundos conseguiram devolver duas vezes ou mais o capital investido;
- 6,7% das gestoras atingiram um retorno de três vezes o valor aportado;
- 2,4% superaram a marca de cinco vezes o capital devolvido;
- 83% do total de veículos analisados não alcançaram a marca de 2x de retorno líquido.
Para o mercado institucional brasileiro — incluindo fundos de pensão e family offices habituados a manter posições residuais em fundos locais ou cotas de fundos de fundos —, a permanência exclusiva em ativos líquidos domésticos e renda fixa impõe o risco de exclusão dos fluxos globais de inteligência artificial, em um cenário onde estar exposto genericamente à classe de ativos não garante a captura do valor gerado pelos líderes do setor.