Nubank recua mais de 8% em NY com negociações para comprar britânica Monzo
Mercado reage com cautela a potencial transação avaliada em até £ 10 bilhões devido a riscos de execução, custo elevado e desafios regulatórios no Reino Unido.

Foto: Nubank / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
As ações do Nubank registraram queda superior a 8% na Nasdaq nesta sessão, após a divulgação de conversas para a aquisição do banco digital britânico Monzo Bank. Com o recuo no pregão, a avaliação de mercado da fintech brasileira passou para US$ 60 bilhões. O papel acumula uma desvalorização de 21% no período dos últimos doze meses.
A operação em discussão envolveria uma combinação de dinheiro e ações capaz de avaliar a instituição financeira britânica em uma faixa entre £ 8 bilhões e £ 10 bilhões. Paralelamente às tratativas com a companhia brasileira, o Monzo também avalia caminhos alternativos, como a captação de uma nova rodada de venture capital com a venda de até 15% de participação ou a realização de uma oferta pública inicial de ações (IPO) na Bolsa de Valores de Londres.
Incertezas de integração e histórico de aquisições
A reação do mercado reflete o receio quanto à complexidade e ao tamanho da transação. Um gestor comprado nas ações do Nubank ponderou que ainda faltam informações detalhadas para calcular todos os impactos, mas sinalizou preocupação com as exigências locais. O mercado inglês possui regulação rígida, o que demandaria o relacionamento com uma nova estrutura governamental de supervisão bancária em meio ao plano de entrada da instituição nos Estados Unidos.
Mas é um negócio que tem um risco de execução grande. O mercado inglês é bem regulado, então teria todo o desafio de lidar com um regulador novo. Além disso, eles estão entrando agora nos Estados Unidos e nunca fizeram um M&A tão grande. Se fosse no preço certo seria um ativo muito específico e único e eu veria com bons olhos. Mas no preço que estão falando, me parece caro demais.
O histórico de grandes compras da companhia liderada por David Vélez também entrou no radar dos investidores. Antes de sua abertura de capital, o banco adquiriu a corretora Easynvest por R$ 2 bilhões, episódio avaliado no mercado como uma integração de resultados aquém do esperado. Em períodos mais recentes, a instituição concentrou seus movimentos em operações menores com foco em absorção de talentos (acqui-hire), a exemplo da compra da Hyperplane.
Oportunidade estratégica versus múltiplos esticados
Na visão do analista Gustavo Schroden, do Citi, a investida sobre o Monzo apresenta atributos transformacionais ao trazer diversificação instantânea para economias desenvolvidas. A aquisição reduziria a exposição da receita à volatilidade de moedas emergentes, daria acesso a captações em libras esterlinas e criaria espaço para a exportação de modelos proprietários de concessão de crédito para uma base fidelizada no exterior.
Contudo, os custos dessa expansão trazem ressalvas. O Citi calcula que a conexão entre diferentes sistemas bancários demandaria forte escrutínio das autoridades britânicas Prudential Regulation Authority (PRA) e Financial Conduct Authority (FCA). Essa conformidade exigiria separação estrita de capital, ampliação dos gastos operacionais com compliance e reporte prudencial complexo.
Criado em 2015, o Monzo opera na Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, com projetos de avanço na Irlanda e Espanha. O banco possui 16 milhões de clientes, sendo 15 milhões pessoas físicas e 1 milhão de empresas. No último ano, reportou receita de £ 1,7 bilhão (avanço anual de 39%) e lucro antes de impostos de £ 172,6 milhões (alta de 20%).
Por outro lado, o analista Marcelo Mizrahi, do Bradesco, demonstrou maior ceticismo ao apontar que o negócio pode tirar o foco das prioridades vigentes no México e nos Estados Unidos. Pelos cálculos da equipe do banco, as cifras ventiladas posicionam o Monzo em múltiplos de 93 a 116 vezes a relação preço/lucro (P/L) e 5 vezes a receita anual. O patamar destoa dos números do próprio Nubank, negociado a cerca de 21 vezes o lucro e 3,5 vezes a sua receita.
Embora o Monzo proporcione escala para estabelecer o Nubank fora da América Latina, o sucesso dependeria da capacidade do Nubank de replicar seu custo operacional extremamente baixo por cliente em um ambiente bancário do G10, altamente regulado e com uma estrutura de custos elevada.